A Culpa é da Ciência #018 — O que o barulho esconde
O ruído das lanchas abafa os peixes. O ruído do cotidiano encobre crises que atingem quem ninguém escuta. Confira pesquisas científicas divulgadas pela Bori para a imprensa brasileira no último mês.
Debaixo d’água, jet skis, lanchas e banhistas produzem um barulho que encobre os sons usados por peixes para se reproduzir, se alimentar e defender território. Pesquisadores da UFPE instalaram gravadores subaquáticos e fizeram censos visuais em duas praias turísticas de Pernambuco — Carneiros e Tamandaré — e descobriram que três tipos de sons emitidos pelos peixes simplesmente desaparecem nos pontos mais expostos à atividade humana. As donzelinhas, família mais abundante nos recifes, dependem desses sinais acústicos. Com a poluição, o comportamento dos bichos é afetado e o ecossistema se abala. Ela também pode interferir nos serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem. A pesquisa, que repercutiu em mais de 45 veículos, também saiu no R7 e na Folha de Pernambuco.
Mas a poluição sonora subaquática é só a mais literal das interferências que a atividade humana esconde. Em terra firme, crises silenciosas atingem quem tem menos voz. O Brasil é o terceiro país do mundo em acidentes com cobras. Um estudo do Instituto Butantan, USP, Unesp e Ministério da Saúde analisou mais de 329 mil registros entre 2010 e 2022 e traçou o perfil das vítimas: 77,8% homens, 58,4% pardos, 63,9% moradores de áreas rurais, quase metade com baixa escolaridade. No caso da surucucu, mais de um terço espera mais de três horas por socorro — em regiões onde o atendimento depende de transporte fluvial. (também no Jornal da USP).
O padrão se repete com as zoonoses. Pesquisadores de UFSCar, UEPG e outras instituições mapearam 16 anos de dados do Ministério da Saúde e encontraram a região Norte puxando a alta — de 180 para mais de 220 casos por 100 mil habitantes. Municípios com maior privação social, populações indígenas, negras e pardas carregam a carga mais pesada. O paradoxo: a mortalidade cai (o tratamento melhorou), mas a incidência sobe (pobreza, saneamento precário e degradação ambiental seguem ali). Como dizem os autores: não basta tratar pacientes; é preciso integrar saúde humana, animal e ambiental. (também na Record News)
E o petróleo que, silenciosamente, deteriora a saúde das pessoas? Pescadores e moradores costeiros que atuam sem proteção, de forma improvisada. Uma revisão da UFBA e do IFSC reuniu evidências de que essas populações enfrentam maior risco de câncer — tireoide, leucemia — com alterações cromossômicas que persistem até seis anos após a exposição. Passada a mancha de óleo, ninguém volta para monitorar.
Escutar os recifes, as comunidades rurais, os pescadores depois do desastre: ciência é, também, um exercício de atenção.
📣 Ampliando Vozes — atenção, jornalista!
A Bori e a ACT Promoção da Saúde convidam jornalistas para o lançamento da segunda edição da Agenda Brasil Mais Saudável, documento com propostas de políticas públicas para que candidaturas de 2026 assumam compromissos na área da saúde. A publicação tem revisão técnica de nomes como José Gomes Temporão, Margareth Dalcolmo e Paulo Saldiva, e se organiza em cinco eixos: alimentação saudável, controle do tabaco e do álcool, atividade física e poluição do ar. As Doenças Crônicas Não Transmissíveis respondem por quase 790 mil mortes ao ano no Brasil. Jornalistas cadastrados na Bori já podem conferir matéria relacionada no site.
📅 Data: 29 de julho de 2026, 10h–11h30
💻 Formato: Online pelo Zoom, gratuito
🎤 Participam: José Gomes Temporão (ex-ministro da Saúde) e Paula Johns (diretora-executiva da ACT), com espaço para perguntas da imprensa.
🧪 Ciência do Brasil
🌳 Desmate lá, seca aqui — As secas que castigam o Sul do país têm endereço de origem: a Amazônia. Pesquisadores da UFPR demonstraram que o aumento do desmatamento reduz a precipitação na bacia do rio Iguaçu — região que concentra 41% da energia hidrelétrica e 60% da produção de grãos do Paraná. Os rios voadores, corredores de umidade alimentados pela floresta, estão perdendo força. Em 2020, mesmo sob La Niña, os focos de incêndio na Amazônia explodiram 120% acima da média.
🩹 Hanseníase: a queda que engana — Os casos de hanseníase no Amazonas caíram quase 96% em quatro décadas — de 154 para 6,65 por 100 mil habitantes. Mas a doença não está controlada. Só em 2024 foram 326 diagnósticos, 3,4% deles em menores de 15 anos — sinal de transmissão ativa. O Brasil é o segundo país do mundo em registros da doença, atrás apenas da Índia.
🩺 A palavra que não sai — Nove em cada dez médicos dizem não estar preparados para comunicar más notícias. Quatro em cada dez nunca receberam treinamento. Pesquisa da Unifesp com 2.418 candidatos a residência revelou que a etapa mais difícil é lidar com as emoções do paciente. Um dado contraditório: 99% gostariam de receber a notícia diretamente se fossem pacientes, mas mais de 30% admitem que omitiriam informações a pedido da família. (também na Folha de S.Paulo, O Globo e SBT News)
🎟️ Exclusivo para você, assinante da Culpa: 70% off no Deep Tech Summit
Tem pesquisa de ponta e quer levá-la ao mercado? O Deep Tech Summit 2026 (11 e 12 de agosto, Inova USP) é o maior evento de deep tech da América Latina — reunindo startups, investidores e pesquisadores em biotecnologia, energia, saúde e clima. E os assinantes de A Culpa é da Ciência têm um presente: o cupom BoriNoDTS2670OFF garante 70% de desconto na inscrição. É sério — setenta por cento. Aproveite. Vagas limitadas! 🚀
📌 Inscrições: emergebrasil.in/summit/#semana
🐾 Bichos & Cia
🐆 A onça do canavial — Em Iracemápolis (SP), a onça-parda vive o ano inteiro numa paisagem dominada por cana-de-açúcar — e se reproduz ali. Pesquisadoras da Unicamp monitoraram a espécie por dois anos e identificaram 22 outras espécies de vertebrados na região. A onça funciona como espécie guarda-chuva: sua presença protege indiretamente toda a fauna. O segredo? Pequenos fragmentos de mata ciliar e Cerrado que criam heterogeneidade suficiente. Mas a dieta revela um limite: predominam roedores pequenos, sinal de escassez de presas maiores. “A onça consegue sobreviver, porém isso não significa que o ambiente ofereça condições ideais no longo prazo”, observa Camila Menezes Siqueira.

🐟 Um só pirarucu — Pesquisadores do INPA e da UFAM analisaram 90 espécimes ao longo de mais de mil quilômetros e concluíram: existe apenas uma espécie de pirarucu na Amazônia, a Arapaima gigas. As diferenças antes apontadas como sinal de espécies distintas são variação natural de uma única população. Saber que é uma só espécie reforça a importância do manejo sustentável para as comunidades ribeirinhas (também no Um Só Planeta, Nexo Jornal e Metrópoles).
✨ E mais
🍫 Ultraprocessados e dor dentária — Quase todos os adolescentes brasileiros (98,4%) consomem ao menos um ultraprocessado por dia. Estudo da UFPel e UCPel com 125 mil estudantes mostrou até 28% mais prevalência de dor dentária entre quem consome com alta frequência. (também na TV Cultura, Revista Seleções e Jornal da USP)
🌧️ Asfalto que engole a chuva — Pesquisadores da UCS propõem levar o Pagamento por Serviços Ambientais para o meio urbano, remunerando quem instale jardins de chuva ou telhados verdes.
🌊 Ciência e oceano na política pública — Publicação da Cátedra UNESCO/USP reúne exemplos de como evidências científicas orientam políticas para o mar, do PSA ao seguro-defeso. (também no Cubo)
💊 Hormônio e dor crônica — Mulheres na menopausa com dor na mandíbula que fazem terapia hormonal apresentaram menos interferência da dor no dia a dia e menos ansiedade, segundo estudo piloto da UFPB.
🔎 Vimos por aí
🎓 Ciência para todos em Niterói — A 78ª Reunião Anual da SBPC começa neste sábado (26) no campus Gragoatá da UFF, em Niterói, e vai até 1º de agosto, com o tema “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”. Palestras, mesas-redondas, minicursos e atividades culturais — tudo com acesso livre e gratuito. Mais de 40 mil pessoas são esperadas no maior encontro científico da América Latina. Programação: ra.sbpcnet.org.br/78RA/
🍽️ Comida no centro do debate — O Joio e o Trigo, em parceria com a Cátedra Josué de Castro e apoio da Bori, realiza em 25 de agosto (10h–12h, online) um encontro para o lançamento de um guia de cobertura jornalística sobre sistemas alimentares, produzido no contexto eleitoral. Inscrições em breve no site do Joio.
🧫30 mil amostras de tumores — O Biobanco do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, em Curitiba, serve de base para pesquisas nacionais e internacionais sobre alguns dos cânceres mais raros em crianças e é o único no país dedicao exclusivamente a amostras pediátricas. (na Folha de S.Paulo)
Gostou do conteúdo? Tem ideias para as próximas edições? Escreva para a gente (aculpaedaciencia@abori.com.br) e faça parte dessa construção coletiva. A Culpa é também!
Recebeu essa newsletter por aí? Faça o seu cadastro e receba as próximas! E deixe seu recado para a gente no LinkedIn ou no Instagram! Nos vemos na próxima edição. O barulho está em toda parte, e a ciência é o que ajuda a escutar o que ele esconde.
Apoio





