A Culpa é da Ciência #017 — Verde para quem?
A transição energética traz muita promessa, mas a conta é desigual. Confira algumas das pesquisas científicas divulgadas pela Bori para a imprensa brasileira no último mês
Todo mundo fala em transição verde, mas a pergunta que quase ninguém faz é esta: quem ela emprega? No Brasil, os empregos verdes representam 16% do total de postos de trabalho, e essa proporção, em dez anos, não saiu do lugar. Pior: trabalhadores negros e indígenas seguem concentrados nos setores marrons, os mais poluentes e os mais expostos quando a descarbonização chegar para valer. É isso que mostra um working paper de pesquisadores do Instituto de Economia da UFRJ, dentro do projeto DIP-BR (Descarbonização e Política Industrial: Desafios para o Brasil), que mapeou a evolução dos empregos no país entre 2014 e 2024. A pesquisa cruzou microdados da PNAD Contínua com tabelas de insumo-produto e classificou as atividades em três grupos: verdes, marrons (alto impacto, como petróleo, agropecuária intensiva e siderurgia) e neutras.
Os números desenham um paradoxo. Em média, os empregos verdes pagam mais e são mais formais, mas a vantagem some entre quem tem ensino superior, faixa em que os chamados setores marrons (mais poluentes) e neutros remuneram melhor. E há um risco social embutido: sem políticas de requalificação, os trabalhadores presos nos setores marrons serão os primeiros a perder o emprego e os menos preparados para migrar. (também no Nexo e em Um Só Planeta)
Um relatório do mesmo DIP-BR, assinado também por pesquisadores da Unicamp, revela que o Brasil acumula um atraso preocupante nos elos mais estratégicos do carro elétrico: baterias, motores e eletrônica de potência ainda dependem de importação. Mas o país parte de uma base privilegiada: a matriz elétrica renovável faz o elétrico emitir menos carbono aqui do que em quase qualquer grande mercado, e décadas de etanol e biometano permitem apostar numa rota de descarbonização mais eclética, que atinge a frota já em circulação sem depender da troca de todos os carros. A chegada das chinesas, como BYD e GWM, empurrou a participação dos elétricos nas vendas de 0,4% para 6,8% entre 2022 e 2025. A questão é se o Brasil vai produzir essa tecnologia ou só consumi-la. (também no Estadão)
Ao observar o que ocorre na Amazônia, já se notam contradições. Hidrelétricas exportam energia limpa para o resto do país enquanto milhares de famílias em comunidades isoladas ainda queimam óleo diesel para iluminar suas casas. Um estudo da Universidade do Estado do Pará (UEPA) mapeou o perfil de sustentabilidade de nove estados amazônicos e concluiu que a abundância de rios, sol e vento não resolve o problema sozinha. O gargalo é a falta de tecnologia acessível e de infraestrutura de distribuição. A saída passa por geração distribuída, painéis solares e biomassa perto de quem vive no território, e não a centenas de quilômetros de distância. (também na Revista Cenarium e no Portal Amazônia)
E quando a régua ambiental vem de fora, ela também pode pesar mais sobre os mais frágeis. Pesquisadoras do IE-UFRJ, ainda no guarda-chuva do DIP-BR, analisaram o impacto da nova lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR) sobre o café brasileiro, que destina mais da metade das vendas ao mercado europeu. A exigência de comprovar que a safra não veio de área desmatada após 2020 recai com força sobre pequenos agricultores, sem regularização fundiária nem tecnologia para bancar a rastreabilidade. (também na Agência Brasil e no Oito Quatro Notícias)
📣 Amplificando Vozes — atenção, jornalista!
A Bori e o CancerThera - Centro de Inovação Teranóstica em Câncer, sediado na Unicamp e um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela Fapesp convidam jornalistas para um encontro sobre radiofármacos no diagnóstico e no tratamento do câncer, tema que tende a ocupar cada vez mais espaço na cobertura de saúde. Especialistas vão explicar os conceitos fundamentais, os avanços recentes e os desafios da área.
Data: 30 de junho (terça-feira), das 10h às 11h30 (horário de Brasília) Local: Online, pelo Zoom Inscrições e programação: bit.ly/radioCTBori
🌊 Mar de evidências
No dia 8 de junho foi celebrado o Dia Mundial dos Oceanos. Em meio à conscientização, a ciência brasileira traz dois recados. O primeiro é que um estudo da Unirio mostrou que o mexilhão marrom não distingue seu alimento natural de microplástico: após oferta de microalgas e esferas de poliestireno na mesma proporção, os animais consumiram os dois quase igualmente, e os aditivos químicos do plástico se instalam nos tecidos gordurosos. O cozimento, que dá conta de parasitas, não elimina esses contaminantes. (também na Agência Brasil e no Globo Rural)
O segundo recado é sobre uma potencial ferramenta. Pesquisadores da UFC identificaram que a microalga Asterionellopsis tropicalis prospera nas águas turvas geradas por dragagens (a remoção de sedimentos do fundo do mar) e engordas de praia (o alargamento artificial da faixa de areia), e que esse aumento de densidade pode funcionar como indicador biológico da intensidade e da duração dos impactos de obras costeiras.
Se os dois estudos põem a ciência a medir a saúde do mar, um artigo de opinião publicado e difundido pela Bori leva o raciocínio adiante: defende a “soberania azul”, a ideia de transformar o conhecimento científico sobre o oceano em decisões políticas globais. Repercutiu no Ressoa Oceano e no Amado Mundo.
💉 Saúde
🧬 Diagnóstico que muda o rumo — Para 17 crianças brasileiras, um exame encontrou a resposta que faltava. Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, em Curitiba, usaram sequenciamento do exoma completo para investigar 100 crianças de até 4 anos com suspeita de imunodeficiências raras e chegaram a um diagnóstico molecular conclusivo em 17% dos casos. Mais da metade das variantes genéticas causadoras de doença eram inéditas. Em mais da metade dos diagnósticos conclusivos, houve indicação de transplante de células-tronco. O estudo expõe uma lacuna que custa caro: um país miscigenado ainda sub-representado nos bancos genômicos do mundo. (também nas Seleções Reader’s Digest)
🩺 Vigilância que protege — Após monitorar mais de 146 mil doses da vacina Qdenga, da Takeda, em Belo Horizonte, pesquisadores da prefeitura e de instituições parceiras identificaram 9 casos de reação alérgica grave, taxa quase duas vezes acima do índice nacional, e recomendam aplicar o imunizante apenas em unidades de saúde equipadas para emergências, e não em espaços como escolas e shoppings. Todos os casos foram revertidos com atendimento. Em nota, a Takeda afirma que os dados, isoladamente, não alteram o perfil de segurança da vacina. (também no Correio)
🧪 Pesquisa do Brasil
🗳️ Raio-X da política — Pesquisadores do INCT-ReDem, da UFPR, lançaram o Portal da Classe Política, plataforma gratuita e sem cadastro que transforma 2,8 milhões de candidaturas registradas entre 1998 e 2024 em informação visual e interativa. É possível consultar patrimônio, histórico e distribuição de votos de qualquer político, e cruzar candidaturas por gênero, raça ou escolaridade. Por exemplo, mesmo com a cota de 30% para candidaturas femininas em vigor desde 2009, as mulheres receberam apenas 12% dos votos para vereador em 2024. (também no Estado de Minas e no O Povo)
🌿 Banco vivo na floresta — O jaborandi é a única fonte natural conhecida de pilocarpina, composto usado contra glaucoma, e está classificado como vulnerável. Como suas sementes perdem viabilidade rápido, não dá para conservá-lo em banco de sementes comum. Pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV) criaram então uma coleção inter situ na Floresta Nacional de Carajás, um banco com plantas vivas que já reúne mais de 500 indivíduos estabelecidos em três das quatro populações monitoradas, com a cooperativa local CoEx-Carajás no planejamento desde o início. (também no Correio Braziliense e no UOL/Gizmodo)

🪴 Restaurar é decisão política — Um estudo da UFPE e parceiros, publicado na People and Nature, defende que a restauração ecológica deixe de ser tarefa só técnica. O modelo de restauração biocultural coloca povos indígenas e comunidades locais no centro das decisões e valoriza as Espécies Culturalmente Chave, plantas e animais centrais na alimentação, na medicina e na identidade desses grupos. (também no Nossa Ciência)
🥬 O quintal como resistência — Na Bahia, pesquisadoras da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) catalogaram 148 espécies vegetais em quintais quilombolas de Feira de Santana e Antônio Cardoso, sendo 115 medicinais e 66 alimentares, entre elas 30 Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) como o bredo e a língua-de-vaca. São as mulheres que comandam essa produção, garantindo comida variada e remédio natural. A urbanização e o avanço dos ultraprocessados, porém, ameaçam interromper a transmissão desses saberes.
🐸 Quem depende do escuro — Cientistas da UFPI e da ONG Bioma monitoraram anfíbios por 13 meses no semiárido do Piauí e descobriram que 60% das espécies analisadas preferem agir nas noites mais escuras. A iluminação artificial das cidades desorienta esse ciclo e atrai as poucas espécies tolerantes à luz para o asfalto, onde encontram atropelamento e predadores domésticos. O mapeamento serve de base técnica para leis de iluminação pública ecológica. (também no Nexo e no #Colabora)
🔎 Vimos por aí
Notícias e conteúdos que nossa equipe selecionou mundo afora.
🔬 Ciência com afeto — Na Década da Ciência do Oceano, uma coluna da Rede Ressoa Oceano em ((o))eco defende uma pesquisa transdisciplinar que inclui comunidades tradicionais, ONGs e gestores em todo o processo, mostrando como laços humanos fortalecem as respostas às crises socioambientais.
🥤 Refrigerante no álbum da Copa — O Idec notificou o Procon-MG e a Senacon contra a Coca-Cola e a Panini por venda casada: figurinhas exclusivas do álbum só vêm na compra de garrafas de refrigerante, o que, para o instituto, incentiva o consumo de ultraprocessados entre crianças e adolescentes.
🎓 Ciência para todo canto — O MCTI anunciou uma chamada de R$ 300 milhões para ampliar a popularização da ciência em todos os estados e no DF, apoiando olimpíadas, feiras, clubes de ciência, museus e planetários pelo programa Pop Ciência.
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