A Culpa é da Ciência #015 - Tudo é crítico na juventude
Nem toda janela se abre para sempre. A Culpa é da Ciência é a newsletter mensal da Bori que reúne histórias, descobertas e debates relevantes para você, que dá valor à ciência.
Neste mês de abril, uma série de estudos antecipados à imprensa pela Bori mostram o tamanho das lacunas de saúde no começo da existência. Logo nos primeiros dias de vida, o cérebro está em obra. Neurônios se conectam, circuitos se formam, e o que acontece nesse período crítico programa estruturas biológicas que duram décadas.
Um estudo da UERJ mostrou isso em ratos: filhotes separados da mãe por três horas diárias nos primeiros 21 dias apresentaram, na vida adulta, mais sinais de ansiedade e depressão. Estudos com ratos são importantes por causa da semelhança genética, fisiológica e comportamental desses animais com humanos. Eles ajudam na compreensão, inclusive, de aspectos do comportamento social e podem levar a novas possibilidades de tratamento. O estresse precoce se modifica, não cessa.
Já a infância e a adolescência carregam seus próprios períodos críticos. Nas escolas públicas rurais do Norte, falta água e falta banheiro — meninas faltam às aulas durante a menstruação e, muitas vezes, abandonam os estudos de vez, aponta pesquisa da UFMG e da PUC Minas (também no Amazônia1). Nas calçadas em frente às escolas particulares de quatro regiões do país, ambulantes vendem o dobro de ultraprocessados em relação a alimentos saudáveis, segundo estudo da UFPE. O ambiente escolar e seu entorno nem sempre são os locais mais seguros (também no Correio 24h).
Por sua vez, pesquisadores da UFPel mostram que 26,4% das adolescentes brasileiras não receberam nenhuma dose da vacina contra HPV, e a desinformação nas redes explica parte do recuo, inclusive entre famílias de maior renda (também no Metrópoles e na Superinteressante). E o tabagismo cresceu na pandemia: os mais afetados foram jovens de 18 a 29 anos, segundo levantamento da UFMG e da Fiocruz. São janelas — e pulmões — que se fecham. (também no Ciência na Rua).
Como se não bastasse, um estudo da Unifesp e da UFS ouviu adolescentes que sobreviveram a tentativas de suicídio e identificou um padrão: negligência emocional em casa, bullying na escola, nenhum espaço seguro para dizer que dói. (também no Paulopes)
🍎 Inflação dos alimentos
Em 31 de março, a Bori reuniu 33 jornalistas em uma coletiva de imprensa para apresentar o relatório “Inflação dos alimentos: entenda por que essa é uma questão estrutural relacionada a temas sociais, econômicos e ambientais do país”. Dez dias depois, o resultado: ao menos 197 veículos cobriram o estudo, com presença em todas as regiões do país.
Entre os destaques estão Nexo Jornal, Isto É, Isto É Dinheiro, Agência Brasil, Agência Pública, O Joio e o Trigo, Jornal de Brasília e Folha de Pernambuco, além do canal de Jornalismo da TV Cultura no YouTube. Mas o dado mais relevante talvez seja a capilaridade regional: o relatório chegou a portais e rádios de Rondônia (News Rondônia, Acontece Rondônia, Carta Rondônia, Se Liga Rondônia), Pará (Portal Guajará, Amazônia Sem Fronteira), Roraima (Roraima Na Rede), Tocantins (Agência Tocantins, CN Tocantins, Jalapão Online), Mato Grosso (MT Agora, Cenário MT, Página 1 MT), Paraíba (Notícia PB, Estadão da Paraíba, Me Siga PB), Bahia (Gazeta Bahia, JBN Bahia, Portal da Feira), Rio Grande do Norte (Gazeta do RN, Tribuna do Norte) e Rio Grande do Sul (Correio do Povo, Pelotas Notícias, Acontece no RS), entre muitos outros. Também foram registradas inserções em rádios comunitárias e regionais — Rádio A Voz FM, Rádio Fonte Viva, Rádio Imigrantes FM, Rádio São João —, o que indica que o conteúdo alcançou públicos muito além das grandes capitais.
🧪 Ciência do Brasil
A floresta que se adapta - Em plena Amazônia, um experimento do programa AmazonFACE simulou o aumento de CO₂ atmosférico em um sub-bosque por dois anos. O resultado, publicado na Nature Communications, surpreendeu: plantas e microrganismos se reorganizaram rapidamente para absorver nutrientes, com raízes ficando mais longas, finas e colonizadas por fungos. Um estudo anterior do mesmo programa já havia registrado aumento de 67% na assimilação de carbono. “Essa rápida adaptabilidade reforça a importância da interação com o fósforo para a possível capacidade da floresta de continuar atuando como um sumidouro de carbono”, explica a pesquisadora Nathielly Martins. (também no Neo Mondo)

Abelhas de menos - Polinizadores respondem pela reprodução de mais de 95% das plantas silvestres do mundo — e seu declínio no Brasil já compromete florestas, lavouras e ecossistemas. Um estudo publicado na Neotropical Entomology, assinado por pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica, Embrapa e UnB, alerta: o país acumula ciência sobre o tema, mas figura entre os maiores consumidores globais de pesticidas e ainda não tem legislação específica para proteger polinizadores. Abelhas nativas sem ferrão são particularmente vulneráveis — doses consideradas baixas já comprometem seu desenvolvimento. “Fomentar políticas públicas para a proteção dos polinizadores é estratégico sob várias perspectivas”, diz Jeferson Coutinho, da Embrapa. (também no gov.br)
🐾 Bichos & Cia
🐟 No fundo, especializados — Pesquisadores do CEBIMar/USP e da Ufes mapearam quase 7 mil peixes em recifes de até 150 metros de profundidade em Fernando de Noronha e no Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Quanto mais isolado o arquipélago, menos espécies — mas mais especializadas e diferenciadas. “Se perdermos essas espécies, podemos perder funções inteiras do ecossistema”, alerta Julia Marx, da USP. (também no Caderno Baiano)

🐕 Raça pura é construção — O Fila Brasileiro e o Fox Paulistinha não se agrupam geneticamente com as raças apontadas como suas ancestrais, segundo estudo da UFRJ e do INCA publicado na Genetics and Molecular Biology. O Fila apresentou maior proximidade com cães farejadores do que com mastins (cães robustos tradicionalmente usados para guarda e proteção). “A pureza de raça deve ser entendida mais como uma classificação administrativa do que como uma realidade biológica absoluta”, defende Francisco Prosdocimi, coordenador do estudo. (também na Band)
✨ E mais
🌿 Fibra sustentável – Sisal cultivado no Nordeste se mostrou promissor para substituir plásticos derivados de petróleo em biocompostos para os setores automotivo e de construção civil, aponta estudo da UFERSA publicado na Revista Matéria. (também no Novo Notícias)
🦽 Queda na estatística – Algoritmo internacional aplicado pela primeira vez no Brasil identificou 3,5 milhões de idosos em alto risco de quedas — número quatro vezes maior do que o método tradicional capturava. Pesquisa da UFSC publicada na European Geriatric Medicine. (também no Viva e no giz_br)
🚨 Violência mapeada – Pesquisadoras da UFPB e da Uncisal desenvolveram modelo estatístico para identificar risco de violência doméstica na atenção primária. Entre 563 usuárias do SUS em João Pessoa, 42,6% relataram algum tipo de violência — muito além do que as estatísticas oficiais registram.(também no Ciência na Rua)
🔎 Vimos por aí
🌳 Desafio Bioinovação Amazônia – O Idesam lança desafio internacional para transformar biodiversidade amazônica em negócios de impacto. Equipes formadas por inovadores amazônicos e especialistas globais em P&D vão trabalhar com castanha, açaí, borracha nativa e outros ingredientes da floresta. Os três times vencedores recebem prêmios de R$ 200 mil, R$ 150 mil e R$ 100 mil. Inscrições abertas.
🎙️ Vozes da Ciência Latino-Americana – O Einstein Hospital Israelita reúne grandes nomes da ciência brasileira, latino-americana e global para debater redes, financiamento, carreiras e o futuro da pesquisa na região em evento gratuito e híbrido que ocorre em 6 de maio. Ciência de fronteira e cooperação internacional na pauta.
🧬 Genética contra o câncer no SUS – A Unifesp inaugurou um centro de diagnóstico oncológico que usa testes genéticos para identificar alterações específicas em tumores e indicar tratamentos mais precisos atendendo cânceres de mama, pulmão, tireoide, endométrio, colo uterino e colorretal. O objetivo é reduzir o tempo entre suspeita e diagnóstico, um dos maiores gargalos do SUS. (Folha de S.Paulo)
🏆 Ciência no TikTok tem prêmio – A SBPC e o TikTok lançam o Prêmio SBPC-TikTok de Divulgação Científica, para criadores e instituições que comunicam ciência na plataforma com rigor e acessibilidade. Três categorias: revelação, perfil consolidado e institucional. Inscrições abertas até 6 de maio.
📋 Qual a sua opinião sobre o Serrapilheira? –. O instituto, que é um dos apoiadores da Bori, vai completar 10 anos em 2027 e está planejando sua próxima fase. Para isso, quer ouvir quem acompanha seu trabalho: onde acertou, onde errou, onde pode melhorar para contribuir ao máximo para a ciência brasileira. A pesquisa de opinião é totalmente anônima (de verdade), leva no máximo cinco minutos e tem perguntas abertas para quem quiser ir além do clique. Quanto mais pessoas responderem, melhor. Vale responder agora e compartilhar com sua rede. Afinal, boa serrapilheira é o que faz uma floresta crescer.
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