A Culpa é da Ciência #014 - Mais longe, mais profundo
A ciência não pode parar na superfície. A Culpa é da Ciência é a newsletter mensal da Bori que reúne histórias, descobertas e debates relevantes para você, que dá valor à ciência.
Um estudo publicado no Journal of Science Communication analisou textos de quatro agências de notícias científicas do mundo e chegou a uma conclusão que dá orgulho — somos um modelo para ampliar a circulação pública do conhecimento científico. A Bori ficou em segundo lugar, atrás apenas da SMC UK, do Reino Unido, e à frente da EurekAlert (EUA) e da AlphaGalileo (Europa). O critério vem de um índice chamado SARP, criado pelas pesquisadoras — da USP, Unicamp, e da Universidade de Amsterdã — e que mede o quanto os conteúdos dessas agências são acessíveis, socialmente relevantes e úteis para além das redações. Veja o post no blog da Bori.
“Esse estudo é especialmente significativo para a Bori porque reconhece, com método, uma aposta que está na nossa origem: a de que comunicar ciência com interesse público, clareza e contexto amplia o alcance do conhecimento e fortalece sua circulação social”, afirma Ana Morales, cofundadora da Bori.
“Na Bori, fazemos um esforço editorial deliberado para divulgar estudos com diversidade de temas, de instituições de pesquisa pelo país, de gênero do/a porta-voz. Não se trata apenas de divulgar resultados da ciência brasileira, mas de mostrar à imprensa toda a sua imensidão e a sua diversidade”, afirma Sabine Righetti, cofundadora da Bori e pesquisadora do Labjor-Unicamp.
Veja, então, a seguir toda ciência brasileira que estamos mostrando por aí! Boa leitura.
📣 Imersão para jornalistas — com pauta
Entender por que o preço dos alimentos sobe exige olhar para além dos índices econômicos. A Bori realiza no dia 31 de março, das 10h às 11h30, o workshop “Inflação dos alimentos: entenda por que essa é uma questão estrutural relacionada a temas sociais, econômicos e ambientais do país” — exclusivo para jornalistas e com lançamento de relatório inédito. No evento também haverá lançamento de um relatório inédito sobre o tema. A inscrição é gratuita para jornalistas cadastrados na Bori.
🩺Doença esconde doença
Crianças com atrofia muscular espinhal tipo 1 (AME) já enfrentam um desafio imenso: a doença afeta os neurônios motores, comprometendo progressivamente os movimentos. Mas um estudo brasileiro publicado na Developmental Medicine and Child Neurology revela que pode haver outro desafio escondido — e que os instrumentos de diagnóstico atuais podem estar perdendo. (também no Metrópoles e no Kwai)
A pesquisa, conduzida pelo Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, pelo Hospital Pequeno Príncipe e pelas Faculdades Pequeno Príncipe, avaliou crianças de 2 a 7 anos com AME tipo 1 em tratamento com terapias modernas. Das 13, 5 foram classificadas dentro do espectro autista — uma proporção de cerca de 38%, muito acima da taxa de 1% a 2% observada na população geral.
O achado mais preocupante: duas das cinco crianças com sinais de autismo tiveram resultado negativo na triagem clássica para o transtorno. Os testes tradicionais foram desenvolvidos para crianças que conseguem se movimentar, apontar, manipular objetos e usar linguagem verbal — justamente o que crianças com AME não conseguem fazer plenamente. Os instrumentos precisam ser revistos e adaptados para quem eles estão deixando para trás.
📊Racismo nos dados
A cor da pele ainda define, no Brasil de 2026, o quanto você vai receber de cuidado quando mais precisa — e o quanto vai pagar por isso com a própria saúde. Três estudos publicados em março constroem, juntos, um retrato que a ciência não deixa mais ignorar. Crianças e adolescentes negros internados em crises de saúde mental recebem, em média, R$102,60 a menos por dia do que pacientes não negros, segundo estudo da USP e da Unicamp publicado na Revista de Saúde Pública. O dado não significa que o sistema gasta menos com eles por ser mais eficiente — significa que eles passam por menos atendimentos. (também em O Povo)
Na saúde bucal, a situação não é diferente. Pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) mostraram, também na Revista de Saúde Pública, que universitários negros têm quase quatro vezes mais dificuldade de acesso a serviços odontológicos do que brancos — e que quem já sofreu discriminação racial tem quatro vezes mais chance de ficar sem atendimento. A perda de dentes permanentes foi duas vezes mais comum entre indivíduos pretos. O dado é ainda mais revelador porque a amostra é de universitários: um segmento que, em tese, tem mais acesso e letramento em saúde do que a população geral. (também na RNDC)
E quando se olha para a história, o padrão se repete. Um levantamento publicado na revista Sociedade e Estado analisou 183 projetos de lei sobre raça apresentados no Brasil entre 1946 e 2012 — incluindo os anos da ditadura militar. Ao contrário do senso comum, o regime não silenciou o debate racial no Legislativo: foram mais de 30 projetos apresentados no período. O problema é que os que reconheciam desigualdades e propunham direitos específicos eram sistematicamente arquivados. A única lei aprovada foi justamente a que reforçava o discurso de que “somos todos iguais”. (também na Galileu)
🧪 Ciência do Brasil
O Cerrado guarda um segredo a quatro metros de profundidade — e ele pode mudar os cálculos climáticos do Brasil. Um estudo da Unicamp publicado na capa da New Phytologist revelou que as áreas úmidas do Cerrado, como veredas e campos alagados, acumulam depósitos gigantescos de carbono orgânico no solo, preservados por dezenas de milhares de anos. A água constante impede a entrada de oxigênio, o que paralisa as bactérias decompositoras e mantém a matéria orgânica intacta por milênios. O problema começa quando essa água some. Ao drenar essas áreas para uso agrícola, o oxigênio penetra no solo, as bactérias voltam à ação — e o que era um cofre de carbono vira uma fonte de emissões. Os pesquisadores apontam que proteger apenas o perímetro imediato das veredas é insuficiente se o entorno continuar secando o lençol freático — como ocorre com o uso intensivo de pivôs de irrigação. (também em Veja)
A essa bomba-relógio climática no Cerrado, some-se um problema de credibilidade no agronegócio. Um estudo da UFPA e da UFRGS, publicado na revista Sociologias, analisou os protocolos de seis grandes traders de soja que operam no Brasil e encontrou um paradoxo: não existe definição consensual do que é soja “livre de desmatamento”. A mesma soja pode ser considerada sustentável por uma empresa e não por outra, dependendo dos critérios e do recorte temporal que cada corporação escolheu adotar. Tecnologias como o monitoramento por satélite conferem aparência de objetividade às alegações, mas podem invisibilizar impactos locais como o uso intensivo de agrotóxicos e violações de direitos territoriais.
✨ E mais
🔬 Publicam mais, influenciam menos — O Brasil está entre os três países com maior participação feminina na autoria de artigos científicos, com 49% de autoras em 2022. Mas de 107 pesquisadores brasileiros cujos estudos influenciaram políticas públicas internacionais, apenas 23 são mulheres. Os dados são de dois relatórios — Bori-Elsevier e Bori-Overton — divulgados no Dia Internacional da Mulher. (também na Superinteressante)
💊Efeito colateral silencioso — O uso em larga escala de azitromicina durante a Covid-19 impulsionou, indiretamente, a resistência da bactéria Streptococcus agalactiae à eritromicina: de 11% para 42% das amostras em cinco anos. A bactéria é inofensiva para a maioria das mulheres, mas pode causar meningite e sepse em recém-nascidos. Estudo da UFPB e UFRGS. (também no Ciência na Rua)
👯 Gêmeos enganam a perícia — Nenhuma das três técnicas forenses testadas isoladamente — análise holística, morfológica e foto-antropométrica — foi suficiente para diferenciar gêmeos idênticos. A combinação das três é mais eficaz, mas o estudo da UFS e Unifran acende um alerta para sistemas de biometria e câmeras de segurança. (também no Cubo)
🏛️ Chaves contra a corrupção — Pesquisadores da Unioeste e da UFGD ouviram 529 servidores públicos e identificaram os principais fatores que levam à corrupção institucional. Falta de autocontrole e de líderes éticos podem desencadear o fenômeno. (também no AM1)
🔎 Vimos por aí
📋 Edital para inovação no agro — A Fapesp lançou chamada para pequenas empresas paulistas com projetos de pesquisa em agronegócio, sistemas alimentares e bioeconomia. Financiamento de até R$500 mil por projeto, com prazo para pré-proposta até 22 de abril. Vale também para projetos de divulgação científica na área!
🏆Prêmio Primeira Infância em Pauta — Iniciativa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, com cooperação da ECA-USP e da Unesco, reconhece reportagens sobre os primeiros seis anos de vida em seis categorias — texto, áudio, vídeo, redes sociais, especiais e estudantes. Premiação total de R$60 mil. As inscrições encerram dia 31 de março.
⚖️ ‘Mata-se uma mulher também aniquilando sua memória’ — Entrevista com Priscilla Placha Sá, professora da UFPR e desembargadora do TJPR, sobre feminicídio, violência vicária e a linguagem que normaliza a morte de mulheres. Uma leitura necessária — e incômoda. (Ciência UFPR)
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