A Culpa é da Ciência #013 — Manifesto: ver e sentir o invisível
A Bori tem algo a dizer. A Culpa é da Ciência é a newsletter mensal da Bori que reúne histórias, descobertas e debates relevantes para você, que dá valor à ciência.
A Bori tem um novo manifesto, e ele começa com um nome familiar: Carolina Bori, a primeira mulher a presidir a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e a primeira psicóloga formalmente registrada no país. Ela estudava percepção — como a experiência sensorial nos permite entender o mundo ao redor.
Percepção é o que nos conecta ao mundo — e a ciência é sua extensão. Um microscópio é um olho mais potente. Um dado epidemiológico é um ouvido que alcança o invisível. A Bori existe para que essa extensão não seja privilégio de quem está dentro dos laboratórios.
“A Bori vai além da plataforma de divulgação científica. Somos ponte, conexão, ligação. Somos a transformação da nossa cultura científica porque damos sentido àquilo que cientistas brasileiros enxergam e transmitimos adiante o conhecimento. Somos parte do ecossistema científico brasileiro e ajudamos a ampliar seu alcance. A Bori mostra o que é produzido no Brasil e, assim, reforça a soberania do país.”
O manifesto é lançado num momento em que a democracia, o jornalismo e a própria ciência enfrentam pressões. Em tempos de desinformação e autoritarismo crescente, fazer circular conhecimento de verdade é um ato de coragem. É assim que a Bori trabalha, articulando produção de conhecimento e sociedade, para ampliar nossos sentidos além da caverna na qual estamos presos.
“Quando a ciência, o jornalismo, a democracia e a soberania se juntam e se fortalecem, as paredes da caverna desabam e a compreensão do mundo deixa de ser privilégio.”
🧪 Ciência do Brasil — Patógenos à espreita
Em Oiapoque (AP), cidade na fronteira do Brasil com a Guiana Francesa, pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Amapá (Unifap) encontraram um problema que se esconde atrás de outro: a malária é tão comum na região que qualquer febre vira, automaticamente, suspeita do parasito. O que fica de fora do diagnóstico? Dengue, chikungunya e parvovírus B19 — três infecções que exigem condutas médicas completamente diferentes. O parvovírus B19 preocupa especialmente: ele ataca a medula óssea e pode causar anemia severa súbita em pacientes já debilitados pela malária. O estudo foi publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. (também nas Rádios EBC)
Num artigo de opinião, Marielena Saivish, pesquisadora da Famerp e da University of Texas Medical Branch, aponta que outros vírus transmitidos por mosquitos — como rocio, ilhéus e cacipacoré — circulam há décadas nas Américas sem entrar no radar dos sistemas de vigilância. Sem exames específicos, infecções entram em categorias genéricas como “síndrome febril” e somem das estatísticas..
Em Salvador, 1 a cada 5 gestantes atendidas nas UBS carregava ao menos uma infecção sexualmente transmissível — curáveis, mas invisíveis. Mais da metade das infectadas não tinha sintoma algum. As IST mais prevalentes foram clamídia (11,6%) e micoplasma (9,6%), identificadas em 302 gestantes atendidas em 17 UBS entre 2022 e 2023. E quase 14% das mulheres nunca haviam feito o exame de Papanicolau. O estudo foi publicado na Revista Latino-Americana de Enfermagem. (também no Jornal Correio)
🌿 Sobrevivente de Carajás

É vermelha, delicada e existe em apenas um lugar do mundo: as cangas ferruginosas do Pará. A flor-de-Carajás (Ipomoea cavalcantei) está ameaçada de extinção — mas tem um truque que pode ser sua salvação. Um estudo do Instituto Tecnológico Vale (ITV), da UFRJ e de outras instituições brasileiras acompanhou populações da planta durante dois anos na Floresta Nacional de Carajás, em ambientes radicalmente diferentes: a canga aberta, exposta ao sol intenso e a temperaturas elevadas, e a canga arbustiva, mais sombreada e amena. Em vez de simplesmente definhar em uma ou prosperar em outra, a flor-de-Carajás fez algo mais sofisticado: ajustou sua estratégia.
Nos ambientes mais quentes, ela germina mais — aposta no recrutamento. Nos mais frios, cresce maior e produz mais sementes — aposta na maturidade. O resultado? Populações igualmente viáveis em condições opostas, sustentadas por caminhos distintos. A moral da história é que a heterogeneidade — a variedade de habitats — é o que mantém a espécie viva. Na revista New Phytologist. (também no Portal Amazônia)
🐾 Bichos & Cia.
🐶 Creme de Cannabis — Uma cadela de 9 anos com dermatite foi tratada com creme à base de canabidiol (CBD) por sete dias no Hospital Veterinário da UFSM — e melhorou. O relato de caso, publicado no Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, não é definitivo, mas aponta potencial. (também na revista Veja)
✨ E mais
🪸Corais em risco – O terceiro branqueamento em massa (2014-2017) afetou 80% dos recifes do planeta. No Brasil, o impacto foi menor — mas deixou os recifes mais frágeis para o que viria: em 2024, Maragogi (AL) perdeu até 90% da cobertura coralínea. Para algumas espécies, isso está significando extinção local. Publicado na Nature Communications, com participação da UFRN, UFBA e ICMBio. (também no Correio Braziliense)
🗳️ Eleição, não ecologia – Meio ambiente recebe menos de 1% do orçamento municipal — metade do que vai para agricultura. Os investimentos sobem em ano eleitoral, mas não por compromisso ecológico: é cálculo. Estudo da UFPR com 4.970 municípios mostra que a continuidade partidária importa mais do que a reeleição do prefeito. Publicado em Cadernos de Gestão Pública e Cidadania.(também na Superinteressante)
🫘 Menos refri, menos feijão – Universitários bebem menos refrigerante e comem mais frutas. Mas o feijão sumiu do prato — especialmente entre estudantes negros, indígenas, mulheres e quem trabalha. Pesquisa com quase 7 mil graduandos na Revista de Saúde Pública. (também no Cubo)
🧠 Armas contra o glioblastoma – Pesquisadores da USP testaram 11 substâncias contra cânceres cerebrais agressivos. Duas se destacaram: uma eficaz em células de glioma, outra nas células-tronco do glioblastoma — as mais resistentes ao tratamento. ACS Omega, com colaborações no Brasil, Holanda e Alemanha. (também no Só Notícia Boa)
🔎 Vimos por aí
🎓 Jovens cientistas do ensino médio, inscrevam-se — O Instituto Principia está com inscrições abertas até 25 de março para a Escola de Talentos, programa gratuito que insere estudantes do 1º ano do ensino médio em projetos de pesquisa junto a pesquisadores da USP, Unicamp, Unesp e outras instituições. Tem bolsas disponíveis para quem tem dificuldades financeiras.
🦟 Chikungunya volta a crescer nas Américas — A Organização Pan-Americana da Saúde emitiu alerta epidemiológico em fevereiro apontando aumento sustentado de casos em vários países, incluindo regiões que não registravam transmissão local há anos. (Metrópoles)
🤒 1,8 milhão de casos de dengue em 2026 — O projeto InfoDengue-Mosqlimate, da Fiocruz e FGV, reuniu 15 equipes e 19 modelos preditivos para fazer a estimativa. Impacto pode ser grande no Rio. (O Globo)
🌊 Extinção silenciosa — Espécies endêmicas de corais-de-fogo do Brasil, historicamente ignoradas nos monitoramentos, sofreram branqueamento de 100% em algumas colônias durante onda de calor de 2024. (Agência Fapesp)
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