A Culpa é da Ciência #012 - Cor da pele: ciência demonstra racismo no Brasil
E os dados não mentem. A Culpa é da Ciência é a newsletter mensal da Bori que reúne histórias, descobertas e debates relevantes para você, que dá valor à ciência.
A cor da pele não deveria definir o quanto você vai viver. Mas no Brasil, a ciência mostra que define — e muito. Pessoas negras têm 49% mais chance de morrer assassinadas do que pessoas brancas, mesmo quando têm a mesma idade, escolaridade e vivem em locais com níveis parecidos de violência. Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP analisaram 42.441 homicídios registrados no Brasil em 2022 e chegaram a essa conclusão incômoda. Em modelos estatísticos menos conservadores, essa probabilidade chega a dobrar. O estudo, publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, usou técnicas de análise geoespacial combinadas com o chamado “escore de propensão”, que permite ponderar pelos diversos fatores. (também na Folha de S.Paulo e no Alma Preta)
E há um passado que também pesa. Quem é preto ou pardo e cresceu durante a ditadura chega aos 50 anos com saúde pior do que quem não é. A descoberta é de um estudo da Universidade de Michigan publicado no Journal of Gerontology: Social Sciences que mostra como traumas históricos e desigualdades estruturais de décadas atrás continuam impactando a saúde da população negra. A pesquisa indica que o período autoritário intensificou privações, gerando consequências que se estendem até a vida adulta: menor acesso à educação, piores condições de moradia, insegurança alimentar e exposição a violências durante a infância e juventude na ditadura criaram um quadro de vulnerabilidades que se manifesta em piores indicadores de saúde cinco décadas depois. (também no Nexo e no Notícia Preta)
E quando o corpo adoece e pede socorro, o sistema de saúde brasileiro também responde de forma desigual. Pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) publicada na Revista Brasileira de Cancerologia revela disparidades no acesso a exames preventivos que afetam desproporcionalmente mulheres negras. O câncer do colo do útero é uma doença prevenível quando há diagnóstico precoce, mas as desigualdades no acesso ao Papanicolau — exame básico de rastreamento — significam que mulheres negras têm menos chances de detectar a doença em estágios iniciais. (também na Galileu)
🧪 Ciência do Brasil
🚗 Hora letal nas estradas - Muitos motoristas preferem pegar a estrada de madrugada para fugir do trânsito. Mas essa estratégia pode conter uma desvantagem mortal. Um novo estudo brasileiro, publicado no Brazilian Journal of Medical and Biological Research, revela que a chance de sofrer um acidente grave é de 3 a 3,5 vezes maior entre as 2h e as 4h da manhã do que durante o dia. A pesquisa, conduzida pelo Instituto Mauá de Tecnologia em parceria com a USP e a Universidade de Swansea (Reino Unido), analisou dados de rodovias federais para isolar o fator horário. Segundo os autores, o perigo nesses horários não vem de fora, mas de dentro do veículo: é o próprio motorista lutando contra seu relógio biológico. (também no Estadão)
✨ E mais
🌳 Floresta de cabeça para baixo - Modelo da Universidade de Brasília (UnB) publicado na revista Biogeosciences incorpora as características únicas do Cerrado, como raízes profundas (que ultrapassam 15 metros) e casca espessa, aprimorando previsões globais sobre incêndios e clima. (também em O Povo)
🧠 Foco no Alzheimer - Cuidadores de pessoas com Alzheimer que adotam estratégias focadas em resolver problemas práticos têm menos estresse e sobrecarga do que aqueles que focam apenas em emoções ou religiosidade, mostra pesquisa da Unicesumar publicada na Dementia & Neuropsychologia. (também no Cubo)
😔 Depressão silenciosa - Apenas 4 em cada 10 idosos brasileiros que relatam sintomas depressivos recebem diagnóstico médico, aponta estudo na Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde com quase 7 mil pessoas. Muitos sofrem em silêncio ou enfrentam barreiras de acesso, especialmente na Atenção Primária. (também no Metrópoles)
🌊 Utilitarismo natural - Comunidades amazônicas em insegurança alimentar severa tendem a perceber benefícios da natureza na provisão de alimento, enquanto grupos menos vulneráveis reconhecem valores culturais e de lazer, revela pesquisa da Unicamp no programa AmazonFACE. (também no Portal Amazônia)
🍔 Cantina saudável, hábitos idem - Em capitais que regulamentam a venda de ultraprocessados nas escolas, adolescentes consomem menos desses alimentos, mostra estudo da USP com 81 mil jovens nos Cadernos de Saúde Pública. (também no g1)
🔎 Vimos por aí
🪐 Planeta gelado à vista - NASA anuncia candidato a exoplaneta rochoso do tamanho da Terra, orbitando estrela parecida com o Sol a 146 anos-luz de distância. Detalhe: pode ser mais frio que Marte, com temperatura de até -90°C.
🧬 IA decifra o DNA - Google DeepMind lança AlphaGenome, ferramenta de inteligência artificial capaz de ler até 1 milhão de letras do DNA e prever como mutações podem causar doenças como câncer.
📊 IA aumenta produção, mas reduz diversidade - Estudo na Nature mostra que pesquisadores que usam IA publicam 3 vezes mais e recebem 4 vezes mais citações, mas tópicos de pesquisa diminuem e engajamento entre trabalhos cai.
🍽️ Prato cheio de soluções - A Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp realiza em 10/3 o 1º Fórum de Engenharia de Alimentos. O evento debate combate à fome, desperdício de alimentos, mudanças climáticas e promoção da saúde com José Graziano da Silva, ex-FAO, e Antônio José de Almeida Meirelles, ex-reitor da Unicamp.
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